Revisão sistemática - H pylori e resistência a antibióticos

O H pylori é um importante patógeno humano que coloniza o estômago de cerca de metade da população mundial. Sua descoberta proporcionou uma grande revolução - digna do prêmio Nobel de 2005- na medida em que diversas doenças gastroenterológicas de causa incerta e sem tratamento tornaram-se doenças infecciosas potencialmente tratáveis. Nos últimos anos, a freqüente indicação de tratamento anti-H pylori associada ao pequeno espectro de antibióticos eficazes levaram ao desenvolvimento de resistência a antibióticos, o que prejudica consideravelmente o tratamento das doenças associadas à bactéria. Este assunto foi o tema de uma revisão publicada na última edição do periódico The Lancet Infectious Diseases, com foco nos mecanismos de resistência aos diversos antibióticos.

Atualmente, o H pylori é aceito como agente causador das gastrites aguda e crônica, e como importante fator predisponente para úlcera péptica, carcinoma e linfoma gástricos. A bactéria ocorre em todo o mundo, mas há consideráveis diferenças na prevalência da infecção nas populações. Nos países industrializados, cerca de 20% a 50% dos adultos são portadores da bactéria, contra cerca de 80% ou mais nos países em desenvolvimento. A bactéria é geralmente adquirida durante a infância e, se não tratada, persiste por toda a vida. As doenças associadas ao H pylori geralmente regridem ou resolvem-se completamente depois do tratamento adequado com antimicrobianos.
A infecção pelo H pylori pode ser diagnosticada por uma variedade de testes invasivos e não-invasivos. Os métodos invasivos são baseados em amostras de tecido gástrico, geralmente biópsias de mucosa, que podem ser analisadas pelo teste rápido da urease, histologia ou cultura. Os não-invasivos incluem sorologias, teste respiratório da uréia e pesquisa de antígeno nas fezes. A escolha do método depende de vários fatores como história clínica, idade, disponibilidade e custo.
Apesar de a bactéria ser suscetível a uma variedade de antibióticos in vitro, poucas drogas são capazes de eliminar a infecção in vivo. Além disso, nenhum antibiótico é capaz de eliminar o H pylori isoladamente - o que se deve a uma variedade de fatores, como incapacidade de o fármaco atingir concentrações apropriadas na mucosa gástrica, inativação de drogas em pH baixo, e proliferação lenta do H pylori. As drogas de primeira escolha são metronidazol, claritromicina, amoxicilina e tetraciclina, combinadas em diferentes esquemas terapêuticos. Ocasionalmente, podem ser utilizados outros fármacos como ciprofloxacina, moxifloxacina, levofloxacina, furazolidona e rifabutina, na maioria das vezes já como esquema de terceira linha. Além da combinação de antibióticos, o tratamento efetivo do H pylori requer também a associação com bismuto ou com drogas antiácidas (inibidores de bomba de prótons ou bloqueadores de receptores do tipo H2).
A resistência das cepas de H pylori às diversas classes de antibióticos foi analisada. A resistência aos nitroimidazólicos (como metronidazol e tinidazol) é a forma mais comum, além de existir considerável ocorrência de resistência cruzada entre as drogas desta classe. Em países desenvolvidos, cerca de 35% das cepas de H pylori são resistentes a esses fármacos, mas nos países em desenvolvimento esse valor pode chegar a virtualmente 100%. A resistência a macrolídeos (como claritromicina e eritromicina) é menor, mas pode chegar a 25-50% nos países menos desenvolvidos, também com considerável resistência cruzada. A resistência a penicilinas (como amoxicilina) e tetraciclinas (tetraciclina e doxiciclina) tem aumentado principalmente nos países onde essas drogas podem ser obtidas sem prescrição - como Brasil, Itália, El Salvador, Índia e Lituânia - mas em geral oscilam entre 1-2%.
Diversas técnicas foram desenvolvidas para detectar a resistência a antibióticos pelo H pylori, as quais consistem basicamente em métodos de cultura e métodos baseados na pesquisa de ácidos nucléicos. O método de escolha indicado pelo US National Committee for Clinical Laboratory Standards é um método baseado em cultura chamado diluição em ágar.
Nos últimos anos, muito tempo e esforço têm sido dedicados ao desenvolvimento de outros tratamentos anti-H pylori, especialmente a busca por uma vacina. Apesar de já terem sido realizados ensaios clínicos de fase I e II, uma vacina comercial ainda não está disponível. Outras linhas de pesquisa parecem também promissoras e envolvem peptídeos antimicrobianos, porfirinas, óleos essenciais e probióticos, porém ainda estão longe de uma aprovação para uso clínico.

Fonte: The Lancet Infectious Diseases - Vol. 6, Issue 11, November 2006, Pages 699-709